Todos nós adorávamos caubóis, Carol Bensimon


Todos nós adorávamos caubóis é o segundo romance da gaúcha Carol Bensimon. Veio depois de Sinuca embaixo d'água (Cia. das Letras, 2009) e do livro de contos Pó de parede (Não Editora, 2008). Carol é mais uma dentre os bem sucedidos alunos da oficina literária do professor Luiz Antônio de Assis Brasil, em Porto Alegre. Decidi comentar o fato porque, enquanto eu lia Todos nós, a autora publicou um texto polêmico no blog da Companhia das Letras. 

A postagem buscava refletir sobre o termo middlebrow, empregado pelo editor André Conti para definir um tipo de escrita que seria responsável pela boa fase da literatura nacional: aquela que nem é rasa e comercial demais, mas que também não é experimental, buscando romper convenções e formas. Depois, Carol discorre sobre as razões que acredita serem responsáveis pela predominância de autores gaúchos entre os últimos lançamentos. Uma delas seria uma suposta, e maior, internacionalização da região Sul perante o resto do país. E isso se deveria, entre outras coisas, às melhores condições sócio-econômicas dos sulistas — o que permitiria, segundo ela, viagens ao exterior e acesso a outras culturas.

Poderia ter deixado o texto para lá se as duas protagonistas da obra em questão não morassem no exterior quando a história começa. Cora foi estudar moda em Paris. E Julia decidiu terminar o curso de jornalismo em Montreal. É neste ponto que a questão de morar na Europa e usar botas Dr. Martens soa esquisita. A tal tendência à internacionalização, neste caso, não passa de um contexto que pouco afeta o enredo. Vale dizer que o conceito de internacionalização do tipo personagens que moram na Europa ou ouvem Nirvana, como as de Michel Laub, foi retirado do post mencionado.

O texto me deixou um tanto decepcionada menos com a fragilidade dos argumentos do que com a opinião desconcertante sobre o que seria a literatura globalizada. Por isso, citei Assis Brasil. Prefiro acreditar que o legado de escritores gaúchos deva-se mais aos 25 anos do trabalho singular de um professor do que ao dinheiro que as famílias de classe média tem para mandar seus rebentos em uma viagem de intercâmbio.

Em tempo, Todos nós é uma road novel com detalhes e descrições bem construídas sobre duas amigas que, depois de uma briga e anos sem se ver, resolvem reatar a amizade em uma viagem pelo interior do Rio Grande do Sul. Acredito que pertencer à mesma faixa etária das personagens tenha tornado impossível a tarefa de não me sentir parte de uma aventura tão particular. Fica claro que a história pertence às duas e a ninguém mais. Mas, em certos trechos, a autora é capaz de abrir a porta do carro e dar uma carona para o leitor no banco de trás, tamanha a sua capacidade de reconstruir cenários e os sentimentos por eles provocados. Como as sufocantes entradas dos hotéis cafonas com seus móveis dos anos 70 ou a tristeza daqueles óculos de sol postos à venda no meio do nada.

Temas como novas estruturas familiares e homossexualidade permeiam a narrativa, mas não subjetivamente: eles são estruturas fundamentais para conduzir os acontecimentos. O assunto é tratado com naturalidade, o que não significa que o cenário seja utópico. A autora introduz elementos como a culpa de Júlia e a reprovação da família de Cora para mostrar todos os obstáculos que um namoro entre duas mulheres precisa ultrapassar. A maioria deles, contudo, é comum a qualquer indivíduo, independente da orientação sexual. Isso porque Todos nós é, antes de qualquer coisa, a história de uma relação e tudo o que ela envolve: brigas, ciúmes, inseguranças e tardes inteiras passadas em um quarto com a mesma música tocando em modo repeat.

Cora, no papel de narradora, acaba criando mais empatia com o leitor. Conhecemos suas angústias e, como ela, ficamos ansiosos com as atitudes de Julia — não sem voltar um pouco à adolescência e seus assustadores frios na barriga. Os pensamentos, os planos, se vai ou não mencionar o ex-namorado canadense. Aos poucos, fica claro o que podemos nos permitir esperar. Na história de Bensimon, não falta nada para que o leitor compreenda a relação de Julia e Cora. Talvez as duas também já entendam muito bem. O que não significa que seja fácil tomar alguma decisão.

TODOS NÓS ADORÁVAMOS CAUBÓIS
CAROL BENSIMON
COMPANHIA DAS LETRAS
192 PÁGINAS
ANO: 2013



Serena, Ian McEwan


Não me rendi assim tão fácil a Serena. O título e a capa não provocaram cócegas o suficiente nas minhas mãos para que elas puxassem o exemplar da prateleira empoeirada da Fnac por vontade própria. Foi só depois de ler muitas críticas positivas a respeito, e de ver o livro figurar em várias das melhores listas de melhores do ano, que baixei o e-book com muita expectativa — é impossível começar Serena sem alguma ansiedade e eu explico.

Todo e qualquer comentário que li sobre a obra dizia o que repito agora, não sem antes prender a respiração: o capítulo final é um dos mais surpreendentes dos últimos tempos. Veja bem, eu sou contra qualquer tipo de spoiler e já passei daquela fase — tão inexplicável quanto os meus dezesseis anos — de sempre ler a última página antes de começar qualquer livro novo. Mas, neste caso, a revelação se faz necessária não porque seja impossível falar sobre a obra sem comentar o desfecho, mas porque tal omissão é uma injustiça com quem ainda não se sentiu tentado pela leitura. Aos que permanecem inconformados, vale dizer que na FLIP do ano passado, ocasião do lançamento mundial de Serena, o próprio autor deu pistas sobre a reviravolta final afirmando que manipular o leitor até o fim é o seu maior prazer — assim o fez, digo por experiência própria, em Reparação e em Serena.  

Na abertura da história, a narradora se apresenta no que parece ser a primeira tensão das próximas páginas:
Meu nome é Serena Frome (a pronúncia é Frum) e há quase quarenta anos fui enviada numa missão secreta do Serviço de Segurança britânico. Eu não voltei em segurança. Um ano e meio depois de entrar fui despedida, depois de ter caído em desgraça e acabado com a vida do meu namorado, embora ele certamente tenha tido um pouco a ver com sua própria queda.
Uma de minhas últimas preocupações literárias é a classificação. Mas, ao contrário do que é descrito na contra-capa e nas linhas copiadas aqui, não posso dizer que considero Serena um romance policial, com suspense e aventura. O mistério existe, conduz a história e, de certa forma, nos leva ao tão comentado final. No mais, a vida de Serena é tão comum que em alguns trechos a identificação chega a ser irritante. Ela não passa de uma adolescente que aparenta ter algum sopro de inspiração na limitada cidadezinha de interior em que vivia, mas que acaba fazendo parte do vasto grupo de recém-formadas que moram em quartinhos apertados, lavam o cabelo na pia, economizam moedas para tomar uma cerveja no fim de semana e sofrem com os trens cheios no inverno. 

Se o leitor é manipulado até o final, isso acontece porque a própria personagem deixa o seu futuro ser conduzido pelos outros. Do curso imposto pela mãe, mesmo que não tivesse talento real para a matemática, ao trabalho no serviço de segurança inglês, para o qual é treinada sem maiores questionamentos, Serena não ousa interferir no destino escolhido para ela. Em alguns momentos, a passividade da personagem é inacreditável, mas não são assim algumas das pessoas que conhecemos?

Enquanto frequentava Cambridge, Serena usava o tempo livre para ler muito e sem filtro. Não tinha problemas em comparar Jacqueline Susann a Jane Austen. Acontece. Chegava a duzentas páginas em uma hora usando uma técnica de leitura dinâmica que deve ser mais popular do que imaginamos. Acredito que a sua ânsia de finalmente fechar um exemplar tem a ver com seus critérios de seleção: insistia em escolher suas próximas leituras pelo enredo e pela identificação. Talvez na esperança de encontrar um final feliz para si ou ler nas entrelinhas os rumos da sua própria história — a mesma sobre a qual não demonstra nenhum interesse de controle.

A história é contextualizada nos anos 1970, quando a Guerra Fria, o combate ao comunismo, o conservadorismo e as opiniões direitistas às quais a personagem se agarra sem muitos questionamentos desenham uma Inglaterra assustada, tentando se reerguer a um ritmo nada animador. O cenário é tão cinza quanto a rotina maçante e burocrática do MI5. Quando o arquivar e datilografar de papéis dá lugar à missão em que Serena conhece Tom Healy, jovem aspirante a escritor, a história muda. Do encontro com Healy, nasce a tormenta que mais tarde conduzirá Serena ao seu aguardado desfecho.

Nas últimas páginas, no trem que a leva em direção à desgraça ou à redenção, ela pensa sozinha, como figura comum que é e enquanto nós roemos as unhas: "ninguém vai morrer por causa disso". Pela primeira vez, sua falta de controle sobre a vida arranca compreensão e identificação do leitor. Não importa o que aconteça, todos temos sempre um quartinho apertado e romances de edições baratas para onde regressar.
SERENA
IAN MCEWAN
COMPANHIA DAS LETRAS
384 PÁGINAS
ANO: 2012